Lago verde

|22/03/2018 12:27

Vens, querida raiz de musgo, visgo oculto em uma vida própria serpenteada. Tão linda vida.
Os mistérios me envenenam de estranhas fumaças, na noite, nos ares carregados na palha no bico de garça.
Mistérios em tapetes persas, em águas que fogem à temperatura, elas contrariam o curso natural, se esverdeiam, se espalmam, conversam comigo na noite de mistérios.
Eu tento pegar seus brilhos, minhas mãos tocam paredes escondidas das costas revestidas por um robe atoalhado. E sinto uma textura morna, quando estendo dedos de
lamento.

Sinto meu rosto adentrar um lago vertical, rosto a rosto, águas do limiar vencido do meu viver, um viver sonâmbulo num concreto chão que se perdeu da gravidade.
Vens, apenas me deixo a ouvir o som do deglutir, eu sinto essas raízes que invadiram meu conseguir.
O dia sem horário, as coisas que transitam inúmeras, em algarismos riscados da ilusão.
Vens comigo, em meu toque imaterial, vem um pedaço do que restou de coração, ele se esqueceu nos pensamentos que presos pelas parasitas dos galhos, se revelam quando vestidos de prata.
Vens, como chuva, afogar todas as roupas de fibras imperceptíveis do meu viver, viver estranho dessas raízes ocultas de dor, de amor, de vida.
Vens como um rosto que se forma em entalhes, como um corpo que emerge dos mares, como uma raiz que se arranca e era um pulso de rubi, e todas as outras que eram flores lindas a nascer ao sol de um dia, a acontecer. Seja como tiver que ser, até mesmo uma raiz morta brotará.
Em meu viver, o depois me trouxe o antes, agora sei, o corpo do corpo do corpo, do todo, ou quase, do acontecido, do amortecido, do escondido bem no fundo das seivas desidratadas do núcleo mais importante da árvore, bem lá, onde poderia nascer verdade, nasceu o incontível, e o que era invisível, aflorou nas águas, nas pedras, no ar, no sangue, no peito, no cérebro, nos ninhos, na doença, no vigor, na intensidade, na idade; na verdade será?
E visível, palpável, morno, quente, incandescente, luz de sol, sorrir, amar, viver e morrer, ali, inerente, mais do que intrínseca dor, há o teor do sal, o milagre da água, a vivacidade do ar, o gosto do metal, e a temperatura com o tamanho que define, o que posso dizer do amor da minha vida… infinito.

Vens, não me sinto completa sem tocar de verdade. Mas os sonhos se encontram, se enamoram de olhares, nas águas que desaguam, em mesmo lago, em mesma foz, em mesma palavra não pronunciada, vens, como flor, que em vento plane, voe e recaia nessa água, e a raiz deixará em paz tudo que ainda nem se saiba, nem tenha sido revelado. Que as ânsias mais enterradas, sejam vivas. Que os desejos mais ignorados sejam verdes, tão frescos e lindos, nesse lago pairado, o momento sublime da vida, essa imersão do amor, que é o nutriente do ambiente mais reluzente, e as coisas maravilhosas, realmente então poderão ser livremente.

Vens.

©Mara Romaro
Para meu amor

Estrela das Águas

(12 de Mar 2018. 16:56. \ Caderno azul de couro \ anotações no caderno de bolso Herbário
Música: Das Leichesteste der Welt – Silbermond)

Não afoguei, o que me cobria na noite
Poeira das estrelas, pólens de deuses desta Zênite
Um murmúrio sagrado iluminado
Eu deitada senti, ouvi, mãos entrelaçadas em rizomas
nessa cama circular da Irupé
Sons guturais proferidos sem idioma
Navegava Navegava

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Tocar da Fragrância Ametista

|09 Mar 18. 21 a 22:47H caderno azul de couro

“mais deliciosos que o vinho

são teus amores e o odor de teus perfumes

excede o de todos os aromas” – Cântico dos Cânticos

Uma chuva que não havia
o chiado de cotovia
restos da purpurina em meus lábios
a madrugada quase fria
das primeiras luzes
Nunca é igual a hoje
somente cores da melancolia
levei os desenhos rosa
desenhos como nunca desenhados
esboços coloridos púrpura que minhas mãos
não podiam
muito tempo o desenho desenhado
nas primeiras notas da fragrância
Um perfume que vinha
exalava por detrás da minha íris
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Abat-jour de folhas secas

Abat-jour de folhas secas

Uma luz âmbar derramada
Vestia meu lugar
como lençóis esvoaçados
corpos imersos
como raízes
Dedos se perdem no adentrar
o espalmar emana o aquecer
Abraço como um tronco de árvore
As folhas translucentes
banham o amor acontecido
Mãos abarcam o rosto
colhem viver na palma
Natureza verte seivas
Beijos perfumados
de mulher selvagem criada nas folhas
Pernas dançam entre si
O abraçar dos passos
Amor em folhas verdes
Amadurecido amanhecer
Desejo brotado
Não foi decepado pelas saúvas
Vento da decisão
Pranto do amor
Canto do viver
Cama de folhas
Bosque da busca
O enfim
encontro de amor
Folhas unidas
tocadas em carinho
no transpassar da luz
Luz permite
corpos se fundem
raízes da terra
Bocas que se amam
Folhas do tempo
Amor consagrado
Paixão nascente
Amor está feito
retorcido
nas árvores da terra

Mara Romaro

20/06/2017 21:45

Música: I Love you… Enigma

Mezanino, em casa.