As germinações do inconsciente(os seis sonetos)

Elementos de um ano em uma noite de sonhos

O – VIGILIA

 

Mergulho na vigília dormente

em penumbra clara

calço meus pés ardentes

pálpebras acolhidas em ninho de avis rara

 

Momentos elucubrando meus prantos

Segurando a mão de alma de santo

Entregando meus braços

ao mago do cansaço

 

Escuto seus passos

do coração farto

Deito pensamentos diminuindo espaços

 

Tomo uma xícara da realidade embriagada

O compasso do pensamento repousa

no voar deste sanhaço

 

 

10/11/17 13H

Música: Starwood Choker – Bing & Ruth

Transição da consciência para inconsciência, adormecimento, momento de elucubração.

Sanhaço – pássaro de plumagem azul esverdeado, que aparece de tempos em tempos no meu jardim.

Elucubração – trabalho intelectual feito à noite, meditação, criação, divagação, devaneio.

 

 

 

 

I – FUGAM

(Sonho: fuga, Elemento: Terra, Período: madrugada, Estação: primavera, Significado: bilioso)

 

Esgueiro-me em pântanos

no pavor de um encalço

Ouço os disparos em meu tímpano

Dor vermelha que escorre enquanto corro descalço

 

Fugindo de todas as fronteiras

Escondo-me nesta trincheira

Por onde jaz um rio de lama

Sepultando sangue de flama

 

Corro fugindo à morte aqui e ali

Meu corpo enfardado de arame farpado

Fuzil tirano atirando a morte a que sucumbi

 

Meus olhos deitam ao brilho de um lago

Reluzente com poente de ouro

Água se transforma em vinho do meu âmago

 

 

10/01/17 13:16

Música: Through the blue – Roger Eno

Sonhos de fuga e perseguição, pensamentos recorrentes, guerra que alimenta de morte, vidas desperdiçadas, sonhos de guerra, sonhos com a morte, sonhos coloridos da primavera. Significa insegurança da infância.

Fugam – Lat. fuga

 

 

 

II – ADOLEBITQUE

(Queimar, Fogo, manhã, verão, colérico – coração)

 

Uma chama nasce do porão

Fumaça me cega, me cala

Meu desespero escorrega no musgo da escada

Chicotes de fogo açoitam meu coração

 

Desvencilho-me dos tentáculos de espinhos

Das cinzas que tatuam meu olhar

Por um corredor de braços a me segurar

Despedaço meus sonhos nas escadas dos caminhos

 

Mãos impuras me aprisionam em medo

Boca sufocada derramando dentes

Queimaduras enrugam a pele do meu peito

 

No fim da escada de destruição

Há no cume, um sino

Badalando nas horas cheias minha libertação

 

 

10/01/17 15:20

Música: The sheltering sky main theme– Ryuichi Sakamoto

Este soneto simboliza na adolescência, as perturbações de situações abusivas, o sentimento de medo e insegurança, as cicatrizes que ficaram perenes, relaciono a dor a um acidente que tive queimadura com leite derramado fervendo. No elemento fogo, simboliza destruição, como se um incêndio tivesse me privado do lar. O fogo também simboliza o tocar não consentido, o aprisionamento que senti. As cinzas simbolizam a sensação de impureza indevida.

Adolebitque – Lat. queimar

Flama – fogo

 

 

 

 

III – Quaerere

(Busca e pesquisa, água, tarde, outono, fleumático – sereno)

 

Miragem da solidão do veleiro

Pai que sorri tremulado por zéfiro

Embarco na viagem de busca no nevoeiro

Seguro timão buscando mãos maternas no mapa de papiro

 

Em minha procura mergulho em cardumes

Passeio no jardim de algas

Nado em mar etéreo como de costume

Estendendo minhas mãos na água das almas

 

Serenidade flui pelos brilhos do lago

Sinto o amparo do sorriso do meu pai

Na água que está ninando meu bebê com um afago

 

À procura do abraço materno

arrastado nas correntes marítimas

no poente céu de outono eterno

 

10/01/17

Música: Love Theme – Ennio Morricone, Andrea Morricone – Czech National  Symphony

Este soneto simboliza inúmeros sonhos de busca, onde nunca encontro, simboliza no lago uma distância possível do encontro, ao mesmo tempo a impossibilidade do abraço nas correntes marítimas. Meu pai é um veleiro, um referencial de apoio e acolhimento, minha mãe é quem se foi que nas minhas buscas desejo encontrar na forma de outra mãe. Este texto também simboliza a vida adulta e a maternidade.

Quaerere – Lat. Pesquisa, busca.

Zéfiro – Vento, personificação mitológica do vento.

 

 

 

IV – Inveniet

(Encontrar, Ar, Noite, Inverno, Sanguíneo)

 

Encontro-me sentada no parapeito de mármore

Percebendo a neve que se solta das estrelas

Batiza o ar frio de suas mudas puras de árvores

Na dispersão do Dente-de-leão, as certezas

 

Do pedúnculo fragmentos libertos da sina

Agarro-me em voo nas cipselas

O pensamento me guia flutuando por cima

 

Subo e desço perto do campanário

Por entre árvores me esqueço

Deslizo no ar no bico do canário

 

Desço no jardim das flores brancas

Sirvo-me de manjares de anjas

Degusto a maçã de cristal ao encontro do sol, amanheço

 

 

10/01/17 18:25

Música: Wait For me – Luca D’Alberto, The sheltering Sky – Sakamoto

Este soneto simboliza o sonho de voar, que tive muito, onde conseguia controlar o voo com meu pensamento e ver a cidade de cima. Na verdade, me inspirei naqueles flocos ou painas do dente-de-leão, tão comum e que neste tempo estavam aos montes planando ao vento. Imaginei me pendurar neles para voar. E também relaciono os sonhos de comida que nunca sentimos o gosto. No elemento ar, é onde encontro a liberdade de todas as amarras. Menciono o parapeito, que pensei na janela da torre do sino da matriz, que visitei por vezes e corri riscos e passei por perturbações. Voar seria o sucesso do desvencilhar.

Inveniet – Lat. Encontrar

Dente-de-leão – planta vivaz (Taraxacum officinale), comumente encontrada e tida como praga, com um pedúnculo longo e uma flor de pequenas plumas, que facilmente se dispersam ao vento. Na medicina popular, pela raiz, folhas e suco com propriedades antiescorbúticas, depurativas e diurética.

Cipselas – no lat. Cypselae – sementes com pequenos ganchos para dispersão, facilmente planam ao vento, carregadas para outros lugares. São as painas que se desprendem do Dente-de-leão. Via Wikipédia – (do vocábulo grego Κμπσελή; “caixa” ou “cofre”) é a designação dada em botânica a um tipo de fruto seco indeiscente formado por um aquénio procedente de um ovário bicarpelar ínfero.

 

V – Perfectio

(Perfeição – Abraço – Sonho lúcido, Quinta essência, Meia-noite, Veranico, Plenitude)

 

Veranico amorna as cores do ar

Das vinhas de amora

Seivas do afeto tocam meu rosto a confortar

Caminho em dunas de sol amarelas

 

Cavalgo caravanas dos entes queridos

Ao encontro das miragens

Magnificentes brilhos da água de amigos

Sacia a sede no Oasis

 

No gosto de tâmaras e olhares fraternos

Há de encontrar o amplexo do sorriso

Saudade evapora das mãos de amigos eternos

 

Mergulhados no mar etéreo

Desfaz nódoas e mistérios

Almas brancas reunidas na perfeição de amar

 

10/01/17 18:51

Música:The sheltering sky – Sakamoto

Na quinta essência, simbolizo o sonho lúcido, com cores vivas e quentes, como também o domínio do acontecimento, realização do desejo do reinício da amizade, do encontro de saudade, do afeto e a pureza do amor. Simbolizo a saciedade que a água proporciona com sua limpidez. O abraço ritualiza o encontro de pessoas queridas.

 

 

Concepção:

Durante várias semanas tentei conceber um texto que exprimisse o que sonhamos, na verdade relacionei alguns sonhos ou ocorrências comuns nos sonhos, por exemplo, queda de dente, nadar no vazio, voar, comer sem gosto, andar nu, mutismo. Relacionei sonhos que me ocorreram muito, perseguição e fuga, busca de uma pessoa sem encontrar, sonho opressor e o desvencilhamento, o encontrar.

Para isso, passei um tempo relembrando conceitos, estudando formas ou etapas para dispor esses sonhos, cogitei as quatro estações e ouvi a sinfonia de Vivaldi, relembrei o filme “Sonhos” de Akira Kurosawa; pesquisei os significados diversos dos quatro elementos da natureza e da quinta essência e as fases do sono, por isso, a introdução é a vigília.

Relacionei fatos da vida, misturando sentimentos e simbolismos. São fatos, os sonhos de perseguição, o medo à noite, queimadura, mãos que me seguravam me prendendo, subir até o sino da igreja, rompimento de amizade, desejo de reconciliação, a dispersão do dente-de-leão que elucidou todas as ideias que estavam perdidas. Os dois primeiros elementos (terra e fogo) são sonhos perturbadores, sobre o pesadelo escrevi um texto à parte, os outros dois elementos (água e ar) são os sonhos leves, prazerosos, mas com sensações incompletas. O quinto elemento refere-se ao sonho lúcido, colorido, com nossa parcial consciência e decisão sobre as ocorrências, realizando a perfeição dos desejos, simbolizando uma esperança quase concreta.

As germinações do inconsciente são a vida própria e independente que nascem de elementos do inconsciente e que necessitam de elementos naturais para florescer (figurativamente) em sonhos.